199 maneiras de ser tornar um anormal

 

Eu odeio revistas femininas. É verdade! Bom, nem tanto assim. O fato mesmo é que, como jornalista, eu já tive uma vontade imensa de escrever para esse veículo e contar as lamúrias, sucessos e desventuras de ser uma pessoa do sexo feminino. No entanto, de uns tempos para cá, talvez devido à minha não participação no quadro de funcionário de um magazine, minha relação com as revistas oscila entre amor e ódio.

Amo quando as revistas mostram mulheres com opções de vida nada ortodoxas e suas receitas para o sucesso. Odeio quando essa “receita” é posta como a única maneira de atingí-lo.

Quando abro uma revista e vejo “tenha a barriga da Xuxa”, “coloque os peitos da Daniele Winnits” ou ainda “145 maneiras de prender um homem”, descubro que existem mais de 545 maneiras de me tornar uma idiota.

É possível se tornar uma pessoa comum ou um alienígena em alguns poucos passos, desde que rigorosamente seguidos.

É ai que meu problema começa. Se eu decorar as 50 maneiras de ser boa profissional, as 25 de boa filha, 13 passos para ser uma boa mãe ou 159 idéias arrasadoras de sexo, não terei espaço na minha mente nem para lembrar o meu nome. E nem poderia! Ao discorrer sobre os tópicos, saio sempre com um pouco menos de mim.

Particularmente, leio revistas para descobrir o quanto estou fora de moda, gorda, feia, sem popularidade e condenada a morrer com 75 anos ao lado de um gato fedorento e com uma verruga no nariz. Isso se não tiver a “sorte” de morrer aos 35 de infarto ou graves problemas na pele, causado por estresse ou pelo uso de maquiagem incorreta.

Francamente. Eu não compreendo o motivo de tamanha baixa auto-estima. Claro, porque se não fosse por isso eu não ficaria algumas horas vendo receitas de moluscos que nunca vou fazer ou namorando um Valentino que, além de extorsivo, não foi feito para meu biotipo. Já que ele veste bem, exclusivamente, o modelo “cabide”.

São 23 melhores caros para se namorar, 60 melhores sapatos de causar inveja a uma centopéia consumista, 45 casacos de pele que levam umas 50 mil espécies em extinção. Ah.. mas para você não se sentir anti-ecológica, politicamente incorreta e pró aquecimento global, você pode comprar os produtos orgânicos no mercado que não venham em embalagens plásticas, de difícil e agressiva decomposição.

No entanto ainda consigo amar as revistas por alguns de seus bons serviços. Continua sendo bacana ver que há mulheres que crescem e se valorizam sem polarizar o feminismo e criar uma guerra infindável dos sexos que é tão útil quanto usar botas de esqui no canal do Panamá.  

É uma pena que o carro chefe das revistas ainda seja transformar mentes perdidas em mentes obcecadas e criar uma legião de clones de misses com espírito de discípulos do Dalai Lama.

Acredito que falte um pouco de honestidade e da divulgação da causa “seja feliz e evolua a seu modo e no seu compasso”. Falta pregar a paz individual como principal mote para o equilíbrio coletivo. Falta dosar tolerância e obstinação, liderança e respeito às causas e sonhos individuais. Falta estimular a estética em benefício exclusivo de cada indivíduo e não como forma de competição, já aguçada demais entre as mulheres. Falta unir o universo feminino pelo espírito de beleza, organização, doação e inteligência tão forte em cada um.

Falta expor o senso do individual, do coletivo e do único para que se possa extrair de cada um o melhor que se tem a oferecer. E que esse melhor continue sendo diferente do vizinho para que se tenha a tão saborosa diversidade.

Não quero saber quais são as 135 maneiras de me tornar outra pessoa. Quero saber qual é a forma (única) de me desenvolver, viver e interagir sendo exatamente essa unidade móvel inconstante e feminina que eu sou. Só assim poderemos ter bons e ruins, sucesso e derrota compartilhados, dentro da cooperação e da solidariedade, para que a comunidade feminina cresça sem formar e administrar irreversíveis rivais, mas indiscutíveis companheiras. Diferentes, é claro, na casca e na essência e, por isso, com toda a graça e leveza que só a diversidade é capaz de gerir.

 

 

 



Escrito por Renata Prado às 13h26
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