I´m back!!!!

Escrito por Renata Prado às 18h34
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Tempo, tempo, mano velho...

 

Estou velha e chata. E não me pergunte por que eu “acho” isso. Eu não acho, eu sei que estou. E explico.  Não estou afirmando isso por conta de ter encontrado meia dúzia de cabelos brancos, perceber que meu metabolismo está mais lento e que a celulite e as gordurinhas, sempre tão distantes de mim, fazem parte agora da minha vida. Digo que estou velha por causas mais abstratas que essas.

 

Há alguns dias fui ao aniversário de uma amiga. Uma pessoa adorável a qual eu amo de coração. Bom, a dita comemoração foi em um bar, em São Paulo, super animado e badalado, um primor.  Me pergunte sobre a banda, me pergunte o endereço e preço da cerveja. Mas não faça perguntas difíceis como “tinha gente bonita?”, “qual o esquema da casa?”, “é um bar para curtir a azaração?”. Responderei que não sei, não vi. Parece até  que eu não estava lá e não faço idéia mais do que seja um bar para “azaração”. Lá na minha longínqua juventude de baladas o termo era paquera. Nada pode ser mais antigo que isso.

 

E para aqueles que não me conhecem, esclareço: Não tenho 60 anos, não... Eu tenho 26 e 11 meses e já estou ultrapassada.

 

Concordo que o fato de não prestar atenção nas pessoas pode ser porque hoje eu sou comprometida e, outra coisa de gente antiga, sou uma pessoa fiel no relacionamento. Então, a azaração seria descartada, mas, mesmo assim, não sou cega, apesar de muito míope, e poderia ver as belezuras do local. Outro motivo plausível é que não via minhas amigas há muito tempo e, NADA, poderia ser mais interessante que passar as poucas horas nas quais estive no bar conversando com elas.  

Aliás, conversar, é algo que fazemos muito. Nós, os velhos. Os jovens dançam, bebem, badalam e trocam idéias. Velho conversa. E quer saber? Não vejo nada de errado nisso.

 

Já se convenceu da minha idade espiritual? Tenho mais argumentos.

Eu não sei mais pegar uma cerveja e dançar a noite toda como se não houvesse amanhã. Eu não sei chegar “trililaça” em casa. Até porque na minha época era “bebaça” ou “chapada” e o verbete neolinguístico derivado de trilili não existia. E sabe por que? Porque estou velha, chata e responsável demais para isso.

 

Balada com pessoas de 20, 22 anos? Balada de criança, praticamente matinê. Hora, sou uma mulher de 26 com espírito de 60, o que torna muita coisa inaceitável. 

Eu não sei mais o que acompanha as diversões acima. Aliás, nem acho mais divertido e isso me dói. Machuca porque eu não era essa pessoa que eu sou. Não nasci assim. Nasci sem dente e careca para depois de tanto tempo me colocarem aparelho nos dentes e tintura nos cabelos...

 

O que aconteceu com o tempo em que eu era mais jovem, tinha menos sono e menos peso, mais dinheiro e menos responsabilidade? Quero minhas fraldas de volta. Voltar a pular elástico e fazer do coffee break um intervalo e dele um recreio.

 

Quero vestir minha Barbie estilo passeio e não ter medo ou vergonha de olhar meu corpo no espelho. Quero voltar ao tempo em que desodorante era talco pompom e creme para garotas era somente filtro solar, e não renew after night. Voltar ao tempo em que olheira era coisa na cara de ursinho panda e uma palavrinha parecida com orelha. Quero o tempo em que calo era caroço nas mãos por andar de bicicleta, portanto, não era nada mau ser uma pessoa calejada.

 

Quero a festa, a dança da vassoura e a paquera. Férias 03 vezes ao ano e ter como maior dificuldade da vida a prova de matemática.

Quero o travesseiro, a mamadeira e o ventre. Quero cursos de inglês às quintas e aula de datilografia. Quero o ontem porque amanhã estarei mais longe da carequinha sem dente que eu fui. Embora eu acredite que há grandes chances de voltar a ficar careca e sem dente.

 

Não quero rugas de expressão que contem o quão expressiva foi minha vida. Não quero gordurinhas que contem o quanto de orgia gastronômica cometi. Ou mesmo calos no corpo e na alma que mostrem o quanto ativa, feliz ou triste, eu fui.

 

Quero que essas marcas se calem. Porque quanto mais o tempo passa, elas armazenam mais de mim. E no fundo, essas malandras exploram quem eu fui, para projetar quem eu sou. Antiga, de corpo e de alma. Com muitas histórias que nem cabem mais na memória então guardo silenciosamente no papel. Guardo com cuidado para que o tempo não apague essa trajetória louca e desgovernada que me fez assim: Velha. E ponto final. 



Escrito por Renata Prado às 18h31
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199 maneiras de ser tornar um anormal

 

Eu odeio revistas femininas. É verdade! Bom, nem tanto assim. O fato mesmo é que, como jornalista, eu já tive uma vontade imensa de escrever para esse veículo e contar as lamúrias, sucessos e desventuras de ser uma pessoa do sexo feminino. No entanto, de uns tempos para cá, talvez devido à minha não participação no quadro de funcionário de um magazine, minha relação com as revistas oscila entre amor e ódio.

Amo quando as revistas mostram mulheres com opções de vida nada ortodoxas e suas receitas para o sucesso. Odeio quando essa “receita” é posta como a única maneira de atingí-lo.

Quando abro uma revista e vejo “tenha a barriga da Xuxa”, “coloque os peitos da Daniele Winnits” ou ainda “145 maneiras de prender um homem”, descubro que existem mais de 545 maneiras de me tornar uma idiota.

É possível se tornar uma pessoa comum ou um alienígena em alguns poucos passos, desde que rigorosamente seguidos.

É ai que meu problema começa. Se eu decorar as 50 maneiras de ser boa profissional, as 25 de boa filha, 13 passos para ser uma boa mãe ou 159 idéias arrasadoras de sexo, não terei espaço na minha mente nem para lembrar o meu nome. E nem poderia! Ao discorrer sobre os tópicos, saio sempre com um pouco menos de mim.

Particularmente, leio revistas para descobrir o quanto estou fora de moda, gorda, feia, sem popularidade e condenada a morrer com 75 anos ao lado de um gato fedorento e com uma verruga no nariz. Isso se não tiver a “sorte” de morrer aos 35 de infarto ou graves problemas na pele, causado por estresse ou pelo uso de maquiagem incorreta.

Francamente. Eu não compreendo o motivo de tamanha baixa auto-estima. Claro, porque se não fosse por isso eu não ficaria algumas horas vendo receitas de moluscos que nunca vou fazer ou namorando um Valentino que, além de extorsivo, não foi feito para meu biotipo. Já que ele veste bem, exclusivamente, o modelo “cabide”.

São 23 melhores caros para se namorar, 60 melhores sapatos de causar inveja a uma centopéia consumista, 45 casacos de pele que levam umas 50 mil espécies em extinção. Ah.. mas para você não se sentir anti-ecológica, politicamente incorreta e pró aquecimento global, você pode comprar os produtos orgânicos no mercado que não venham em embalagens plásticas, de difícil e agressiva decomposição.

No entanto ainda consigo amar as revistas por alguns de seus bons serviços. Continua sendo bacana ver que há mulheres que crescem e se valorizam sem polarizar o feminismo e criar uma guerra infindável dos sexos que é tão útil quanto usar botas de esqui no canal do Panamá.  

É uma pena que o carro chefe das revistas ainda seja transformar mentes perdidas em mentes obcecadas e criar uma legião de clones de misses com espírito de discípulos do Dalai Lama.

Acredito que falte um pouco de honestidade e da divulgação da causa “seja feliz e evolua a seu modo e no seu compasso”. Falta pregar a paz individual como principal mote para o equilíbrio coletivo. Falta dosar tolerância e obstinação, liderança e respeito às causas e sonhos individuais. Falta estimular a estética em benefício exclusivo de cada indivíduo e não como forma de competição, já aguçada demais entre as mulheres. Falta unir o universo feminino pelo espírito de beleza, organização, doação e inteligência tão forte em cada um.

Falta expor o senso do individual, do coletivo e do único para que se possa extrair de cada um o melhor que se tem a oferecer. E que esse melhor continue sendo diferente do vizinho para que se tenha a tão saborosa diversidade.

Não quero saber quais são as 135 maneiras de me tornar outra pessoa. Quero saber qual é a forma (única) de me desenvolver, viver e interagir sendo exatamente essa unidade móvel inconstante e feminina que eu sou. Só assim poderemos ter bons e ruins, sucesso e derrota compartilhados, dentro da cooperação e da solidariedade, para que a comunidade feminina cresça sem formar e administrar irreversíveis rivais, mas indiscutíveis companheiras. Diferentes, é claro, na casca e na essência e, por isso, com toda a graça e leveza que só a diversidade é capaz de gerir.

 

 

 



Escrito por Renata Prado às 13h26
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As pequenas e as grandes coisas

 

As grandes coisas chegam em caminhões de mudança. As pequenas, se escondem na memória. E se esquivam, vão, voltam, batem e ficam.

As grandes coisas podem parecer esnobes e, tanto quanto as pequenas, cair em um esquecimento sem fim, no quarto escuro e empoeirado das lembranças que não visitamos.

As pequenas coisas podem ser provocativas, sussurros que nos tiram do chão.

As grandes coisas vêm com os olhos dele, redendos e adornados como gigantes jabuticabas,  espelhos feitos de pingos de mel. As pequenas coisas vinham nas sobrancelhas arqueadas e no olhar de dor e fúria lançado algumas vezes.

Como poderia aquele olhar ter mais expressão que os cílios longos sorrindo sobre a íris furtacor?

As grandes coisas se escondem no ciúme calado e na leveza da solidão incontida, que se defronta com o sorriso encantado da boca semi aberta exibindo, sem pudor, toda a magia do seu rosa e branco.

As pequenas coisas vêm no beijo úmico, quente e macio dos lábios cor-de-rosa, quase virgens, portlofio do paraíso.

As grandes coisas vêm nas mãos intranquilas, sedosas, rápidas  e vorazes em um carinho que parece tocar a alma.

As pequenas coisas vêm na memória das mágoas que insistem em grafitar o branco da paz interior. As grandes coisas aparecem nos pesadelos, nos medos e anseios de perder ou descobrir que nunca se teve; elas estão nas posses.

As grandes coisas estão na textura dos cabelos, as pequenas, no perfume dos cachos recém saídos do banho.

As grandes coisas cabem em um dia primeiro de julho, as pequenas estão distribuídas na pele, alvo de todo tato e desejo do paladar.

As pequenas coisas se escondem nos olhos aflitos do espectador de tal figura radiante e dourada, assombra suas lembranças, e parece deixar uma incógnita considerável  sobre o que ainda há por vir.

E assim as coisas, grandes, pequenas, mutáveis preenchem todo o espaço da alma, algumas para se tornar perpétuas, outras à espera de se tornar inexistentes.



Escrito por Renata Prado às 13h25
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Agosto

  

Agosto veio para trazer a decisão, a dúvida, a certeza. Agosto traz 31 dias de inverno estranhamente tropical. Agosto que há 62 anos retratava os primeiros dias do meu primeiro grande herói e, 10 anos depois retratava a tristeza da morte de Getúlio, explicada como suciídio. Agosto construído por marcos na história.

Agosto, na sabedoria popular um mês não muito agradável. Mês do cachorro louco. Tempo de usar blusa do avesso para fugir de lobisomem. O Dia das Bruxas poderia ser em Agosto.

Agosto que antecede setembro. Agosto que traz manhãs cinzas e inferno astral. Agosto de ansiedade, expectativas, dúvidas. Agosto que encerra a descoberta de um novo relacionamento. A partir dele, nada ou tudo poderá deixar de ser novidade. Agosto que traz rotina, regras e desordem. Agosto que traz estabilidade e segurança para quem convive com situações e pessoas lineares, mas não para mim.

Agosto de montanha russa. Agosto que precede o aniversário que me coloca mais próxima de Balzac. Agosto que me faz indagar se estou mesmo fazendo a coisa certa... (a resposta é sempre não!). Agosto de contas a pagar, de retomada de atividades, abandono de antigos vícios e arrependimentos. Agosto de memórias e, especialmente, de necessidade de esquecimento. Agosto que vem e que vai, trazendo questões insolúveis. Agosto que marca o mês de número oito, que aproxima o Natal, que já remete a um novo ano. Agosto que me recicla, me confunde, esclarece, alimenta e mata. Agosto de dúvida, Agosto de perguntas, Agosto de incertezas. Agosto de novidades antigas, de consumos novos em costumes velhos. Agosto que arrebata a serenidade. Agosto que, anualmente, grava dentro de mim, em toda sua plenitude, perturbações inescapáveis.



Escrito por Renata Prado às 08h43
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O vestido

 

A vida é louca, ainda assim, me surpreendi ao notar que ela realmente ensina, prova, aperfeiçoa. Naquele dia me senti estéril, disléxica e analfabeta. Por isso tanta dificuldade em ler significados reais nas entrelinhas tortas e maltrapilhas das verdades que criamos dentro de nós.

Meu maior exemplo e minha grande mágoa estavam ali, na minha frente me obrigando a optar por qual sentimento eu sucumbiria.

A imagem daqueles olhos me despertava a lembrança de um amor tímido e discreto, a agressividade dos seus gestos na defensiva me recordava um período tumultuado em uma relação caricata de mãe e filha.

Mas naquela manhã conversamos e, embora nossas opiniões ainda divergissem, pude entender como ela se esforçava para impor sua posição antiga em um mundo completamente novo. Nem tudo era démodé. As situações são cíclicas e, algumas vezes, as soluções também. Ambas apenas aparecem com uma nova roupagem.

E, naquele momento, quando interrompida por mim ela se calou, pude perceber que não apenas me escutava, me ouvia.

Quis saber um pouco mais sobre aquela heroína às avessas que, assustadoramente tinha tanto de mim. Sem que eu pudesse evitar ou amenizar, me vi sendo muito minha mãe e, mais do que nunca, sendo filha. Percebi ser muito de seus erros, de seus acertos e muito daquilo que ela não pôde ser. Descobri que nossa semelhança ia além dos olhos verdes, do signo e do gênio indomável. Encontrei afinidade onde só havia desafeto, compatibilidade onde havia agressão. Tantas palavras violentas para dizer que gostaria de ser aceita exatamente como sou. Tanta dor para provar que nos amaríamos mesmo sendo o avesso uma da outra. E tanta ignorância por não perceber que não há avesso no amor.

Foi preciso um longo inverno para amadurecer e aguardar a chegada de uma primavera exalando rosas vermelhas e orquídeas brancas. Eu me tornei a outra escolha. O caminho que minha mãe não escolheu para si. E cada vez que nos perguntamos como seríamos se tivéssemos escolhido a outra estrada, olhamos uma para a outra e temos a resposta. Talvez por isso lutamos tanto. Uma com a outra, cada uma dentro de si. Porque não podemos negar ou desgostar do que somos e não deixamos de amar as escolhas que não fizemos.

Naquela tarde ela finalmente abriu o baú, misterioso para mim durante toda a minha infância. Nele, fotos, cartas, recordações que traçam a vida desta pessoa que eu conhecia tão pouco, mesmo tendo dentro de mim. E ao me mostrar suas fotos de casamento com o meu pai, semeou uma lembrança que eu não tenho, de uma escolha que eu não fiz. E da caixa de pandora, repleta de enigmas e campos inexplorados ela sacou bravamente seu vestido; branco, longo, discreto, cheio de mudanças e ilusões. Entregou-o a mim. Ao vesti-lo, me senti um tanto filha, um tanto mãe, um tanto honrada. De soslaio ela me espiava, talvez ansiando pelo momento em que eu o usasse para valer. E eu, ali, diante do espelho e dela, me perguntei novamente para onde vão as escolhas que não fizemos. E, por um momento tive a certeza sufocante de que perdi tanto tempo procurando nela uma inclinação às minhas escolhas e ao meu pensamento, sem dar conta de que ela é tudo que eu sempre quis ter. Agora ansiamos, juntas, o momento em que o vestido sairá novamente do baú, sendo o protagonista de mais uma cena da minha história. Será mais uma escolha, que virá em algum momento. E, sendo igual ou não à feita por minha mãe, terá uma ponta de verdade em comum: os sonhos, o brilho nos olhos, a fé e o amor. Caminhos tortuosos nos mostraram o que há lá fora. O restante se encarregou de mostrar o quanto de nós foi comprimido, a medida em que crescemos, para que coubesse cada vez mais mãe e filha no pensamento, nas atitudes, nos valores e no coração.   



Escrito por Renata Prado às 16h56
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Em preto e branco

 

(baseado no texto de Vitor Hugo - todo mundo faz isso?)

  

Eu te desejo não desistir e que saiba, estrategicamente, a forma de recuar.

Desejo que você não tente nadar até a metade da piscina e, desacreditado de que pode prosseguir, nade esta mesma metade de volta ao ponto de partida.

Desejo que não tenha medo por não ter para onde ir. Não raro, não vemos alternativas mesmo tento um lugar para o qual voltar.

Que você nunca necessite regressar, mas se o fizer, que tudo o que importa esteja lá.

Desejo que supere seus medos pueris, porque depois da infância vem a juventude e ela não elimina os temores, nem a coragem. Cabe a você decidir o que levar.

Desejo que você saiba que a maturidade não trás segurança, dinheiro, estabilidade, mas te obriga a buscar tudo isso. Que você descubra isso antes de ser um adulto.

Desejo que você perceba que, enquanto você cresce e almeja não ter horário para voltar das festas, seus pais envelhecem e soltam suas rédeas, devagar, por entre os dedos. Que você descubra isso antes de ver os cabelos brancos.

Desejo que você não lamente pela luva, mas pela mão, não por seus sapatos, mas por seus passos. As escolhas nem sempre são corretas e isso não nos faz menos capazes. Ninguém aprende a nadar fora d´água. Amadurecer é também colecionar erros.

Desejo que você respeite seus limites e saiba entender suas vontades. O rígido quebra mais facilmente que o flexível. O que é flexível se curva. Seja humilde e admita, o certo e o errado, antes de tudo, para si próprio.

Desejo que você tenha surpresas e que suponha muitas coisas também. Há uma euforia comum em adivinhar e se ver desprevenido.

Desejo que você tenha amor e ódio e saiba discernir qual deles te move e para onde.

Desejo que você tenha crença e que saiba, sobretudo, duvidar.

Desejo que você beije, toque, deixe florescer a juventude cheia de hormônios e dúvidas. Desejo que você chore e gaste horas ao telefone que, tempos depois, ria compulsivamente de tudo isso e veja a história se repetir com os jovens desbravadores que você há de ter.

Desejo que você se apaixone ao menos uma vez, ainda que escolha nunca mais se apaixonar.

Desejo que você quebre barreiras, regras, que você beba, dance, cante e escreva versos em inocentes folhas de papel.

Desejo que você tenha e perca o juízo ainda que não saiba exatamente o melhor momento para  ter ou perder. O melhor momento é sempre o que ainda não aconteceu. Acreditar nisso diminui a tendência à queda de cabelo precoce.

Desejo que você ganhe e que perca para valorizar cada segundo, frações imutáveis da vida.

Desejo que tenha forças e, quando fraquejar, tenha o apoio daquele que te admira todos os dias diante do espelho. Que você tenha brilho nos olhos e cuca fresca.

Que você tenha mágoas e que saiba perdoar. Te desejo justiça, equilíbrio, liberdade e contratempos para dar um pouco de sabor.

Acima de tudo desejo que seja feliz, mesmo na dor, porque viver é sentir constantemente, pelo tato, pelo som... É usar todos os sentidos em um só sentido, de dentro para fora, de um para o outro.

 

P.S Certa vez, quando me perguntaram "O que você desejaria para um filho?" pensei em patrimônio, raízes sólidas e asas aventureiras. Hoje, ainda sem filhos e sem saber mais da vida do que há 5 minutos, respondo que deixaria amor para que sempre se possa recomeçar...



Escrito por Renata Prado às 11h33
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"Quem conta um conto, aumenta um ponto"

 

Há quem afirme que os contos de fadas são textos adultos, com informações subjetivas e muita malícia disfarçada em doces cachos dourados e chapéus vermelhos. Os estudiosos podem afirmar com propriedade o que nós, relés civis, mortais, desconfiamos desde os primórdios. Os contos, os best-sellers infantis, os desenhos animados são feitos para análise da turma de Letras da USP, mas, certamente, não para crianças, não mesmo.

Começamos com uma garota que está descontraída no jardim e, sem pestanejar, passa pelo buraco de uma fechadura (ou pela fresta da porta) e entra no país das maravilhas... o que ela fazia no jardim? Comia cogumelos? Isso sem considerar que sua trajetória inclui dama de copas, ovo que fuma charuto e um percurso que bem pode corresponder a um movimento de peças em tabuleiro de xadrez.

Ainda mais popular que a protagonista acima, é outra mocinha que, vestindo vermelho, é quase comida por um animal que fala... (um bípede peludo com unhas afiadas que ataca pré-adolescentes. Qualquer semelhança com um pedófilo desprezível é mera coincidência).  E, ainda pior que essa loucura, são as doces donzelas que se casam e são felizes para sempre... Príncipes não têm chulé, mau hálito, nem futebol na quarta-feira.

Definitivamente os contos estão fora da realidade. As princesas são sempre belas e felizes e seus príncipes nunca moram em um reino distante (exceto o Shrek). Sendo assim, vamos  dispensar o silicone, a escova progressiva, o celular, e-mail e a ponte aérea e nos sentar, belas e formosas, a espera de um cavalo branco que carrega um príncipe valente exibindo seus dentes de propaganda de listerine. É, isso parece mesmo pueril.

Seguindo a analogia dos contos X vida real, me intriga profundamente a história de uma senhorita branca como a neve com boca vermelhinha da cor do meu (do seu e de todo o mundo) sangue. Com algumas modificações na história original, a saga desta desafortunada, condenada a cuidar de sete homens de uma vez, seria facilmente a história de algumas pessoas que eu conheço.

Tão pálida como uma folha de papel, a pobre Branca (nome sugestivo para alguém que parece prima do Gasparzinho) é convidada a se retirar de sua casa e deixar toda aquela vida de infância, brincadeiras com plumas, ouro e rubi; e fazer alguma coisa descente em sua vida. Com idade suficiente para suspirar por príncipes pelos cantos, portanto, discernimento para outras coisas também, Branca enfia a viola no saco (no sentido figurado) e se deixa levar para a floresta, com um caçador (a velha história da moita). Fora dos muros que separavam seu mundo e a vida real, Branca tem de se virar e vai morar com uma galera do barulho em uma casa minúscula no meio do nada. Enquanto seus sete companheiros novos saem para ganhar a vida em um trabalho semi-escravo, a mocinha se diverte lavando, passando, cozinhando e comendo coisas tóxicas para sair da rotina. Já de saco cheio de seus companheiros folgados, ela se deixa enganar por uma senhorinha simpática que tava passando por ali só para lhe dar uma maçã com arsênico.

Ao chegar em casa, seus amigos a encontram envenenada e a levam a um hospital público, onde a estragada Branca fica por pelo menos sete dias. Invadidos pelo remorso, os sete picaretas choram e fazem orações para que ela não morra e continue a lavar, secar e fazer tortas de fruta. Nesse momento, o inesperado acontece. Um príncipe que estava também passando por ali sem querer, a vê e, encantado com tão bela silhueta, se apaixona, a beija, enche seus corações de amor... Eles se casam, fazem belos filhos, se mudam para um belo castelo com toda a família dele e centenas de empregados para administrar. E após diversas  cavalgas matinais, pôker às sextas, cricket  aos sábados e golfe aos domingos, o Príncipe continua encantado por ter uma bela esposa, muitos amigos, e todo o conforto que o dinheiro pode comprar. Branca tem diversos afazeres, e procura se divertir três dias na semana, procurando aquela senhorinha enrugada que distribui maçãs. Seus sete amigos, solteiros incorrigíveis, mudaram de emprego, contrataram uma diarista, viajam 2 vezes ao ano para os reinos distantes, ora ao norte ora ao sul do país, e mandam postais à Branca de vez em quando. Alguns deles conheceram umas jovens por ai, mas nada que possa ser considerado um compromisso.

A senhora idosa, que vendia maçãs, montou uma banca no centro comercial do reino, depois um mercado, depois uma mansão com divisão para alimentos, roupas e até utensílios domésticos.Comprou uma carruagem importada, uma casa com vista para o mar e troca de namorado a cada bimestre.

A colega de escola de Branca, que não apareceu por um segundo nesta história, foi estudar em Paris; conheceu especialistas em psicologia, direito e culinária. Escreveu um best-seller sobre uma jovem, seus amigos e as escolhas da vida, urgentes ou ocasionais, que nos fazem felizes ou infelizes agora que é mais justo do que para sempre.

 

 



Escrito por Renata Prado às 12h51
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"Parte de mim é o que recordo, a outra é o que eu ainda não sei".

 

Eu acordo nas manhãs, quentes ou frias, descompassada com o ritmo do meu despertador. Isso me faz assim, um tanto ansiosa, um tanto atrasada.

Me arrumo, cuidadosa ou porcamente, segundo minha disposição. O que me faz um tanto vaidosa, um tanto demodê.

E ando pelas ruas, caminhando ou dirigindo. O que me faz um tanto pedestre, um tanto estressada.

E vejo pessoas para as quais digo bom dia, outras para as quais me faço cega ou balbucio descontente alguma saudação.Isso me torna um tanto simpática, um tanto impaciente, um tanto indesejada.

E faço meu trabalho que oscila entre muito e mais um pouco. Ora faço-o todo, com vigor, ora desdenho do tempo e faço barcos de papel. Essa postura me deixa um tanto produtiva, um tanto insolente.

Almoço o mesmo feijão com arroz ou, quem sabe, uma lasanha, talvez uma folha de alface. E a refeição me faz um tanto satisfeita, um tanto gulosa, um tanto diet.

Tomo um café descafeinado com biscoito doce, ou um capuccino seguido de bolacha recheada. O que me faz um tanto sem paladar, um tanto energizada.

E, eventualmente, vejo pessoas que amo, as quais ofendo ferozmente, ou acaricio com fervor. Essa dualidade me faz um tanto débil, um tanto justa.

Encontro aquela gente que não considero e a deixo ir sem assédio e porquês; as vezes questiono e odeio secretamente. Relevar e ressentir me fazem um tanto desatenta, um tanto humana.

Ajudo pessoas contrafeita ou prestativa. O que me faz um tanto culpada, um tanto generosa.

Algumas delas se favorecem, se alegram e passam adiante a atitude. O que me faz um tanto tímida, um tanto satisfeita.

Outras abusam do tratamento, aborrecem e seguem ingratas e egoístas, o que me faz um tanto irada, um tanto trouxa.

Não há muito o que me faça distinguir tais pessoas, o que me faz um tanto incapaz, um tanto injusta.

Sigo lendo, cantando, vendo, sonhando. O que me faz um tanto didática, um tanto desafinada, um tanto espectadora, um tanto artista.

E compro, jogo, vendo, uso, bebo e quebro. O que me faz um tanto consumidora, um tanto esportista, um tanto comerciante, um tanto adepta, um tanto embriagada, um tanto atrapalhada.

E respiro, sorrio, choro e conto. O que me faz um tanto viva, um tanto alegre, um tanto triste, um tanto escritora.

Sigo respirando e agindo até o próximo anoitecer, num círculo indeterminável de nascer e pôr do sol. O que me faz um tanto gente.

Anseio, busco, peço, oro. O que me faz um tanto ambiciosa, um tanto empírica, um tanto comunicativa, um tanto espiritual.

Erro, caio, levanto. O que me faz um tanto cretina, um tanto machucada, um tanto corajosa.

Bato, apanho, aprendo e desconheço. O que me faz um tanto errada, um tanto sonsa, um tanto esperta, um tanto ignorante.

Isso, aquilo, este e o outro me fazem assim, um tanto carne, um tanto aura, um tanto desejo, um tanto desapego, um tanto brisa, um tanto fervor, toda junção de corpo e espírito.

E a vida que passa por mim sem que eu a prenda, me faz assim;,um tanto eleita, um tanto grata;  um tanto atrevida,, um tanto trouxa. E a morte, que ronda quem respira, me faz assim, um tanto nostálgica, um tanto clandestina, um tanto marcante, um tanto inexistente. 



Escrito por Renata Prado às 16h03
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“ Todo dia o ninguém José acorda já deitado” (Los Hermanos)

 

Vamos, acorde! Levante e venha ver o sol nascer. Venha olhar as pessoas, saber o que elas pensam, ler seus lábios através de vidros, sentir o cheiro enfadonho dos que se levantaram há pouco e o suor cansado do trabalho de todo dia.

Saia da cama, abra os olhos. Sinta a atmosfera do quarto e as gotas suaves da manhã sobre seu rosto. Pegue seu sabonete, se apresente diante de um dia novo que está começando a despontar.

Vá, fuja! Corra para cima, ou para baixo, mova-se. Entra em um ônibus, no carro, em um táxi, no trem. Pegue um cometa e faça um piquenique na lua.

Abstraia todo o mal e mire seu pensamento na brisa marinha em um dia de sol.

Suba nos coqueiros, pise destemido na areia. Veja a onda, levante o olhar às nuvens. Viaje, cante, dance, entre em coma por alguns minutos.

Levite, pense, esqueça, sambe. Deixe os cabelos ao vento e a pele molhada. Tome banho de sol, de lua, de chuva. Pise na lama. Suba no telhado, jogue bola, pule corda, solte pipa. Use hidratante sem álcool e beba suco de amora. Pinte as unhas de vermelho, fure a orelha, o nariz, o umbigo. Coma cenouras e morangos. Veja tv, vá ao teatro, leia um livro. Corra, ande, nade, pedale, dirija e, sobretudo, voe.

Medite, grite, desarrume, esconda, aponte, entregue, tome, peça, dê, abandone. Mude de idéia, repense, avalie, jogue, ultrapasse, transgrida, morra por dentro de vez em quando, faça uma pausa para o luto e renasça. Floresça belo, concreto, perfumado e cheio de espinhos.

Sonhe, compre, curta, beba, beije, ame, pule a cerca de seus temores, arrisque-se um pouco mais. Ouça, ouça, ouça... e depois processe tudo e guarde um pouco pro remédio e outro pouco pro veneno, o que os diferencia é a dose.

Amanheça. O galo já chamou por você lá fora, já soaram os sinos da igreja e a escuridão daqui já não faz mais sentido. Use a capa de chuva e as galochas e não esqueça o protetor solar. Não sabemos o que a vida nos reserva lá fora. É preciso estar preparado e sóbrio para ganhar, perder e reconstruir pontos de vista. Abra e feche seus pulmões e sinta seu coração pulsar. O dia começa a raiar e faz primavera do lado de dentro, veja as flores. Volte ao começo, se olhe no espelho e sinta o sangue correr por suas veias. Agora saia e vá a qualquer lugar e faça dele novo, promissor, surpreendente e seu. Caminhe incessantemente e não se detenha pelas dúvidas, elas virão. Não se importe com isso ou com aquilo, tome alguma direção ao norte, sul ou se vire pro leste. Siga à diante e em qualquer direção, desde que seja para frente.

 



Escrito por Renata Prado às 13h45
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"Quando me vi tendo de viver comigo apenas e com o mundo" (Legião Urbana)

 

Estou cansada do mundo. Cansada do timbre da voz do mundo. Cansada de seus ouvidos surdos, de sua cabeça cega e sua boca de hiena, cheia de dentes.

Peço distância de suas cobranças, divórcio de sua companhia, exorcismo de seus fantasmas e demônios.

Quero distância das pessoas que conheci há 10 anos e que me olham com uma intimidade manifesta e daqueles que se apresentam ariscos e mostram uma intimidade latente.

Não quero receber mais nenhum pedido público ou reservado de obviedades estúpidas, invasivas, tenebrosas. Não quero reencontrar pessoas de longa data, fingindo que foi ontem e fingindo dar uma importância que só existe na memória deste momento distante. Também não quero fingir que há memória quando ela não faz diferença alguma.

Quero me livrar das concessões a contragosto. Quero esclarecer que o fato de alguém conhecer, saber, ver ou ter algo de você em algum momento não significa em hipótese alguma que terá passe livre e poderá sempre achar motivo para estar presente. Quero dizer a eles, todos, certos em sua clarividência de que não há como afirmar o que é sentido por outra pessoa. E, mesmo que se adivinhe, aceite se for negado. É facultativo o ato de se expor. Deixem que as pessoas se exponham da forma, para quem e quando quiserem.

Quero dizer aos amigos que deixei, por escolhas diferentes na vida, que não há caminho certo ou errado. O que existe são caminhos que trazem alegrias e dores em escalas e freqüências diferentes, podendo, muitas vezes, alternar entre o certo e o errado. Portanto, contentem-se ou odeiem o caminho que escolheram e deixem que cada um julgue sua própria escolha.

Aos ex-namorados, quero dizer que esqueçam o que não foi legal e deixem o que foi guardado na memória como justificativa do tempo ocupado. Quando a lembrança surgir, pensem apenas que durante aquele tempo vocês estiveram ocupados vivendo a vida daquela forma. Se quiserem cultivar os erros, as brigas e promessas que não se cumpriram, estejam à vontade. Sugiro apenas a precaução de ingerirem algum medicamento para o fígado. Independente da decisão tomada, guardar ódio, mágoas e rancores ou não, assumam os riscos com uma distância segura de mim. Trocando em miúdos, não me assombrem!

Às pessoas que se sentiram bem à vontade para aproveitar escandalosamente da minha hospitalidade, confiança, amizade, carinho ou qualquer outra coisa, quero dizer que foram bem espertos. Apenas eu não via que é natural aproveitar até a última gota quando nos oferecem coisas boas. Principalmente quando tais coisas não são feitas por vocês ainda que em benefício próprio. Chamei de insensibilidade e vampirismo o que poderia bem ser fraqueza e carência.

Odiei quando me enganaram, tentando me convencer do que eu queria e do que era melhor para mim. Isso só gerou dores de cabeça, até que descobri o tal remédio para o fígado. Em tempo, rancor, remorso, culpa envelhecem a pele e deixam manchas horríveis. Não é uma boa relação custo benefício. Por isso, digo a todos vocês que saiam do meu caminho. Não há mais pontos a lembrar, consertar ou simplesmente esclarecer.

Quero dizer para cada um dos seres que fizeram uma passagem relâmpago na minha rotina e para cada um daqueles que se estenderam um pouco mais que: “ sim eu sei o que eu penso e estou certa disso; não sinto a menor falta sua, do que você foi é ou será; sim eu disse coisas que não ia cumprir e não fui a única, então não atormente; não quero ter contato algum com você , sim nos magoamos, provocamos, fomos infantis e ridículos; não importa a dimensão que isso tomou, já está resolvido, por favor desapareça”. 

Aos amigos que vêem tantos defeitos, apontam, fazem suas gracinhas ridicularizando as fraquezas alheias, quero dizer que serei paciente e estarei ao lado deles diante de suas próprias fraquezas sem importuná-los por isso.

Para os que me julgam e enchem seus corações para dar conselhos despretensiosos de como eu deveria ser, fazer, agir, sentir, mostrar; agradeço, e, despretensiosamente digo existe a possibilidade, nada remota, de serem assim, eles mesmos, do jeito que me descrevem e que os faz tão felizes. Sejam! E escolham companhias que suportem sem querer que elas mudem.

 

(continua..)



Escrito por Renata Prado às 12h53
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(continuação)

 

Para aqueles que peço colo e apoio com freqüência, agradeço por ouvirem e falarem destemperadamente e de forma respeitosa e responsável. Para aqueles que abusam da chance e tendem a se exceder e se apoiar na situação para mostrar força, graça e inteligência, recomendo aproveitarem bem, porque não será dada uma segunda chance.

Para aqueles que vejo todos os dias, por motivos involuntários como trabalho, negócios, ou destino com mau humor, expresso minha solidariedade pelo aborrecimento. Existem coisas em vocês que eu não gosto, não aceito, não tolero, quase não suporto, o que me faz pensar que a vida é mesmo uma piadista falida. Portanto, de nada vai adiantar a agressividade sobre mim e/ou o que faço. Posso não gostar do seu jeito de andar, de falar, vestir, posso detestar quando vem ao meu encontro e desejar secretamente que você me erre. Isso não fará com que a convivência seja melhor e pacífica. Portanto, vamos tolerar enquanto podemos e ver quem joga a toalha primeiro. Essa situação não é obrigatória, mas é necessária, então vamos passar por ela logo de uma vez, e que seja sem traumas.

Para aqueles que vejo todos os dias, mesmo que involuntariamente, e me fazem feliz com a simples presença, deixo um sorriso. Reconheço suas qualidades, defeitos e sei que vêem os meus e se isso não foi motivo para nos matarmos, certamente nos fortaleceu.

Para aqueles que pensam que sabe algo a meu respeito e me rotularam seja lá do que for, sugiro uma atualização diária para o julgamento não ficar defasado. Para aqueles que acreditam que não há definição para quem eu sou, esclareço que sou uma pessoa em construção e, é exatamente por isso, que, nesse momento, estou me livrando dos entulhos.

Para todos os que estão indo embora, o acerto das contas. Caso resolvido, encerrado e arquivado. Para os que não me conhecem, meus cumprimentos. Para os que me odeiam, meu respeito à opinião.  Para aqueles que me amam, meu apreço. Para os meus, simplesmente tudo de mim.

 



Escrito por Renata Prado às 12h53
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“A vida é o que acontece enquanto você faz outros planos” (John Lennon)

 

 

Ócio. Vontade compulsiva de não fazer coisa alguma. Cama confortável, frescor de fim de tarde entrando pela janela... Inércia. Sem controle dos músculos faciais, você se pega com a boca aberta e o espírito inativo. As coisas se movem lentamente quando você abre os olhos que, neste momento, pesam algumas toneladas.

Blackout! Mais alguns segundos de silêncio dentro da sua cabeça enquanto o mundo vive suas 24 horas lá fora.

Os travesseiros são tão macios. Dá para ouvir o dia relaxando, diminuindo a freqüência. A brisa corre fria e você fecha a janela. Volta para o edredon aconchegante e o lençol florido. Só mais um suspiro e, quem sabe, uma leitura. Você contempla o livro e o elefante sentado em suas costas parece agora comprimir sua cabeça. Os olhos se fecham de novo, subitamente.

Seu estômago ruge e seus músculos sofrem espasmos consecutivos. O telefone parece tocar, em algum lugar.. mas onde? O som vai sumindo e os homenzinhos da sua cabeça parecem querer fazê-lo levantar. Não. O corpo não obedece. Você se vira de lado e cobre a cabeça, último movimento antes do transe total.

De repente parece entrar em alfa, beta, gama, ou seja lá o que for, e todas as preocupações vão se esvaindo... e suas forças também. Você fica imerso durante horas no estágio entre o sono e o desperto. Sente seu corpo relaxar e não consegue conectar um pensamento. Lembra-se vagamente do trabalho, de uma conta para pagar, de algum compromisso que parece existir, mas não se lembra totalmente e esboça um sorriso. Quantas coisas você deixou de fazer enquanto pensava e agora que estava terrivelmente imerso em um sono destruidor o raciocínio parecia mais preciso e menos importante. A vida, que sempre parecia acontecer enquanto você buscava freneticamente trabalhar, dirigir, comprar, beber, sair, assistir, festejar, e mais uma quinzena de verbos no infinitivo, estava passando por ali naquele momento. Mais uma espreguiçada e um suspiro. Tudo foi ficando azul, branco, verde, rosa... a atmosfera foi tomando a cor da paz.

Òcio. Mania incontrolável de não procurar o que fazer. Hipnose, contemplar-se do lado de dentro, sentir-se em toda sua simplicidade que é mascarada nos momentos em que há tanto a fazer.

Ócio. Férias do mundo e hora extra para si próprio. Momento do nada em que tudo acontece. Encontro entre seu corpo e espírito, numa comunhão que resgata a energia para regar a vida, que, lentamente, de olhos fechados, você sente florescer. E os carneirinhos pulam a cerca... enquanto o sono vem.

Escrito por Renata Prado às 10h09
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" Tem certas coisas que eu não sei dizer..."

 

Ela estava lá quando eu nasci. Pequena, magrinha, linda, com aqueles olhinhos e aquele olhar que só ela poderia ter. Não mudou muito com o tempo.

Ela quis me matar. Teve ciúme, teve medo e quis me arrancar do espaço que, antes de mim, era só dela. Mas ela era compreensiva e madura já com pouca idade e esse sentimento de revolta lhe foi negado. Ela se calou.

Cresceu, ficou encantadora com seus cabelos longos e finos coloridos e ao vento. Baixinha e com um belo contorno, brava, inteligente, implacável.

Me pegava na escola e me beliscava grande parte do caminho. E desde que eu era catatau me acostumei a ouvir os seus segredos. Segredos que, antes de mim, eram só dela, depois passaram a ser meus também.

Ela foi embora quando uma fase de sua vida estava acabando e essa mesma fase para mim estava só começando.

Quando ela saiu da adolescência para a vida de responsabilidades reais e cruéis, eu estava entrando ainda na estrada dos tijolos amarelos. Então ela me fez falta, muita falta. E quanto mais distante, mais se preocupava em saber daqueles que ficaram na retaguarda, enquanto ela crescia. E eu sempre pensei nela, mesmo enquanto dormia.

Até que um dia chegou a minha vez, e novamente fui aprender a viver no espaço que era só dela. A vida adulta chegou também para mim e ela fez tudo para que isso parecesse mais leve, me repreendendo e aceitando o meu eterno adolescer.

Mas ela se foi novamente, para outra fase da vida dela. Desta vez, eu sofri copiosamente. O que eu faria sem suas ordens chatas e reclamações sem sentido? Agora isso seria destinado a outra pessoa, da qual ela cuidaria e seria cuidada num espaço que não seria mais meu.

Então eu me mudei. Nos separamos fisicamente novamente e eu sentia que toda noite enquanto eu confessava meus pecados ela estava ali, me censurando e me ajudando a achar ajuda para sair das perdições em que sempre me encontro.

Então eu fui crescendo e entendendo como só o amor nos permite aceitar que alguém invada nosso espaço. E eu invadi, mesmo sem querer. A partir do momento que nasci e ela não era mais a caçula, quando me mudei para sua casa em outra cidade para fazer faculdade... e, quando esperava minha casa atual ser reformada, mudei para lá de novo. Ela acompanhou meu primeiro dente, minhas primeiras palavras, meu primeiro beijo, minhas inúmeras formaturas e ainda hoje me dá forças, mesmo que apontando implacavelmente minhas falhas, em tudo que der, vier, vier e não der em nada...

Muitas vezes me senti rejeitada da sua turma, expulsa do quarto que dividíamos quando ainda morávamos com o pai e a mãe... quando ela era a sobrinha predileta e a filha mais companheira que minha mãe pôde ter. Hoje vejo que ela já entendeu que mesmo depois de ter tirado seu título de caçula, de criança da casa.. eu nunca poderia tirar o espaço que ela sempre teve no coração de todos nós. Porque o espaço que ela ocupa em nossas vidas.. ah.. este sim é só dela.

 

Eu te amo Lu. Minha irmã que não se limita em ser apenas isso. O tempo todo que estou longe de você, o espaço em mim que você costuma também invadir, se enche de saudade.

Escrito por Renata Prado às 14h59
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"CPI agora! O tempo passou e eu não vi. (alguém me diz onde apaga a luz?)"

 

Quero uma CPI. Agora, já. Uma CPI para vasculhar cada centímetro da minha vida nos últimos 15 anos. Uma investigação à base de lupa capaz de esquadrinhar precatórios, correios, bingos e cuecas a procura de dólar. Declaro a CPI da roupa íntima. Calcinha furada, cueca rasgada, sunga, samba canção... Não têm hora, nem vez. Nem mesmo os ácaros conseguirão se esconder da revista microscópica da minha CPI. Não haverá perfume, fio de cabelo ou batom na cueca que passe desapercebido. Não, não, não!

Investigação agora. CSI da vida real, sem a parte dos mortos e dos crimes, claro.

Vamos organizar um mutirão. Cercar todos os suspeitos e organizar um interrogatório. Assim perguntarei diante do espelho: “Onde é que você estava com a cabeça quando na noite de 09 de julho de 1995 resolveu, imprudentemente, se apaixonar pela primeira vez?”

“Quando foi a primeira vez que passaram por cima de você como um trator? E quantas vezes depois disso a história se repetiu, até que vieram os rolos compressores, os carros de corrida e até mesmo os incendiários, reduzindo seu coração ao pó?” Um tanto quanto bíblico. Do pó ao pó. Soa romântico, coisa que você nunca quis ser.

“Quando foi que aquela sua amiga deixou de achar graça em tomar sorvete na praça e trocou os livros da escola por aquele cara que não tinha nada que se pudesse querer? E quando foi que a vida de vocês se distanciou tanto a ponto de você fazer prova de estatística enquanto ela dava à luz ao segundo filho? Quando foi que ela se arrependeu? Quando foi que você sentiu saudade?

Você se lembra por que em 18 de setembro de 1999 (seu aniversário) você foi ao extinto Flyght 510 e dançou com um mestiço careca, que chegava a ser ridículo de tão engraçado? Você poderia explicar por que o magnetismo dele cresceu tanto que vocês viveram lado a lado durante 4 anos?

“Você sabe reconhecer onde errou? Se errou? Definir o que é um erro? Você sabe dizer por que se perde e quando se ganha?”

Quando foi que você trocou as bonecas pelos beijos? A agenda pelo cd de rock e a calça rasgada? Quando a coca-cola passou a ser antiácido e a cerveja um aperitivo? Quando o passeio noturno de bicicleta deu lugar ao ônibus lotado para faculdade que deu lugar ao carro cheio de amigas rumo a um badalado fim de semana?

O que você enxerga através do espelho que é genuinamente seu?”

CPI. Agora, já! CPI para entender porque ele pediu que você não mais ligasse.Por que quando você precisava dizer, ele não pôde ouvir.  Para descobrir porque você errou tanto e se flagelou com pessoas que nada poderiam acrescentar. CPI para buscar a solução para a fuga que você tenta executar a cada dia, de recordações de momentos em que não se reconhece, não quer repetir, sequer acredita que aconteceu.

CPI. Agora. Está instalada. Responda porque cedeu a tantos subornos, porque chantageou, omitiu, mentiu, mandou cassar e prender. Entregue seus comparsas, confesse, denuncie.

Quanta propina você aceitou para mudar rapidamente de fora para dentro e lentamente de dentro para fora? Quais segredos você esconde? O quanto sabe ler meu pensamento?

Decifra-me agora, ou te devoro. CPI. Agora, instalada! Cada grão de areia está sendo vasculhado. Cuidado com seu par de meias, uma de cada cor, e com a possível blusinha curta na barriga. Tenho visão de raio X e posso ver até os movimentos do seu estômago. Entregue-se logo para que isso não demore. Tenho receio de que isso se estenda na madrugada e na manhã tudo acabe em pizza. Responda-me agora quantos atos você teve que geraram tantos efeitos? O que foi a causa para tanta conseqüência? Vou sentar-me aqui e ouvi-la relatar. Sei que entre uma história e outra está a sua culpa e dentro daquilo que nunca poderá ser explicado ou entendido poderemos encontrar sua absolvição.



Escrito por Renata Prado às 18h37
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